Não me basta mais as lembranças do que um dia chegamos a viver, pelo menos eu acho que aquilo era viver, vai lá que as coisas mudem ao trocarmos os ângulos, não é mesmo? Mas não estou aqui para ter mais uma dessas brigas sobre relacionamento, muito menos cutucar em ferida profunda, dessa que dá medo de chamar o doutor para examinar, parece que não tem mais cura para essa ferida de amar, não é mesmo? Pois, temos que concordar, feridas apaixonadas nos cegam sem pensar, chegam assim cheias de ornamentos, bailam em nossa frente, chamam-nos até para dançar, mas quando perdemos o sapato em meio a pista, essa maldita criança sapeca que conosco brinca, não espera o calçado entrar. E aqui ficamos, bailando sozinhos como dois desafortunados, levando o amor aos troncos, sem barranco, porque se for para rolar que seja para uma piscina de álcool depois de uma trilha de lâminas afiadas.
Estou sendo maldoso? Que vá pro inferno, tu bem que deveria saber, amor assim é coisa para gente forte, que nasceu em berço de ouro e tem dinheiro para psicólogo. Pobre não deveria amar, essas coisas saem caras, e o feijão fica cada vez mais difícil de comprar. Andei pensando em economizar nessas dosagens de amor, a falência pode chegar, e aí, vive-se de amor? Fé em Deus que não, do jeito que anda escasso mais que água em deserto, é melhor escolher a morte por agora, faço a passagem e lanço um livro de memórias póstumas. Afinal, para escrever não precisa ser poeta. Posso até começar…
“Virgulino, sim senhor, nascido em lugar algum, em ano algum, sem pai, sem mãe, filho de chocadeira, coração latejado e amando Maria Madalena, a assanhada que me deixou com coração tricotado em dois pontos na ladeira do esquecimento”.
Veja só, um bom começo para um livro que terminará […] “e ele morreu só”.
Mas deixando essa prosa sem sentido de lado, vim aqui apenas para dizer que meu coração anda meio que desesperado, afinal, tu nem dele quer mais saber. Essas coisas que começam amando sempre acabam em solidão. Bicho mais estranho esse tal do amor sem coração, dizem até que é platônico, mas veja só que não pode ser, meu coração andou bem espertinho, espiando as vizinhas procurando até entender, entender que nasceu para ser apenas de uma, da maldita que nem quer me ver. Mas essa declaração sem sentido, anda meio que enfeitada, pampa louco que escreve muito se perde até mesmo nas palavras, sabe lá para onde vão os sentidos das descaradas, afinal, fica apenas a poesia desse amor sem máscaras. Eu queria apenas te dizer que amo, amo em súplicas, eternamente, você
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