Sempre contei com um amigo inusitado, chamado Solidão. Foi assim até em meus primeiros relacionamentos, sempre entrei em namoros difíceis, onde quase nunca, muitas vezes nunca mesmo via a pessoa amada. Cresci dentro de meu quarto, com meus aparelhos eletrônicos e muitos amigos distantes aproximando-se de mim de uma forma inexplicável. Vi também meus amigos se distanciarem, e nunca os culpei por isso. No começo, pelos primeiros amigos distantes, eu me sentia a pior pessoa do mundo. Não sabia o porque de terem me deixado, e as vezes sabia ao menos quando haviam feito isso. Mas aprendi que devia seguir a vida à qualquer preço, sempre levantei a cabeça em meio a dificuldades e a tristezas. Em vários episódios de minha vida, contei com alguns amigos novos. A alegria era um deles, tinha também a compreensão, a sinceridade e a fidelidade, estes estiveram presente em minha vida, mesmo que só pelos aparelhos eletrônicos que usava para nos comunicar. E comecei a escrever para eles. Tornei-me um poeta, escrevi dia-e-noite. E isso me satisfazia, até conhecer algo novo, chamam ele de amor, mas ele diz não ter um nome ao certo. “Alguns me chamam de Clarisse, outros de Miguel, por fim sou do mesmo par. Já me chamaram de Bailarina e me intitularam Helena, mas este nunca viu minha face. Já fui xingado de tudo quanto é nome, e já fui visto como animal de estimação, mas eu gosto de ser o sentimento mais belo das pessoas, gosto dos apelidos carinhosos, de mô, de anjo, de meu bem. Alguns dizem meu nome sem saber quem eu sou, outros me afogam em seus próprios travesseiros, mas quando eu bato na porta logo me repreendem. Sou o amor, um amor para poucos.” disse, em sua ultima carta enviada a mim. Não sei de certo porque parou de me escrever, mas ele devia estar cansado de ter me mandado várias outras cartas, onde prometia me amar pra sempre.
O amor foi meu amigo logo que entrei na adolescência, e algumas vezes escrevi pra ele na ultima folha de meu caderno - que saudades das ultimas folhas -, ali estava o nome de várias antigas paixões, dentro de um coração. Meu amor destinatário e eu, o remetente da carta que sempre enviei ao meu amigo, o amor. Mas ele nunca encaminhava a carta, talvez nem mesmo ele fosse um amigo fiel. No final de cada paixão descobria que não era aquele amor que me mandava as cartas. Sempre me enganei, sempre pensei que tal pessoa era o remetente, onde na verdade nem haviam traços poéticos. Muitas vezes abri a janela de meu quarto no meio da noite e olhei pras estrelas, na esperança de que alguma fosse o carteiro que me trouxesse a correspondência, com algum nome doce de remetente, e dessa vez, meu humilde nome destinatário. Nada.
Virei noites sem sono esperando que o meu amor batesse em minha porta, e não mais mandasse cartas em meus sonhos. Estive cansado de seus envelopes que transbordavam esperanças e expectativas. O amor foi sarcástico comigo, até que um dia, ele resolveu aparecer. Foi num ponto de ônibus, uma jovem moça de franja cumprida indecisa entre se esconder por trás de suas orelhas ou na frente de seus olhos, usava fones de ouvido que estralavam de longe a música, que mais tarde eu descobriria ser sua preferida. Fitamos um ao outro, e ali o amor estava, de uma forma simples e imensa. Nos conhecemos, nos amamos, namoramos, noivamos e casamos, onde viriam, eu sei, os dias mais felizes de minha vida.
Em nossa lua de mel, numa noite muito quente de verão, ela esteve deitada em meus braços. Quando pensei que já estava dormindo, meu amor sussurrou baixinho em meu ouvido ”Sonho, estás acordado?”
“Sim. Pensei que já dormia, meu amor”, respondi.
“Preciso tirar o véu de um segredo meu”, disse com os olhos entreabertos. “Antes dos meus últimos livros publicados em nome de nosso amor, escrevia cartas para alguém que eu não sabia se existia. Eu o chamava de amor, e ali estavam muitas coisas sobre mim que ninguém sabia. Eram segredos que hoje só você, meu amor, sabe. Ali estavam meus desejos, meus anseios, meus sonhos, meus planos pro futuro e pro casamento, planos que hoje são do nosso casamento. Eu sempre pedi para as estrelas que te enviassem meus carinhos e afagos, na esperança de que um dia você aparecesse e soubesse que tudo aquilo era meu.
“Eu sempre soube que eram de meu amor”, a aconcheguei em nosso cochão, e peguei um baú que sempre mantive trancado embaixo de nossa cama. “Mas não sabia por qual nome eu clamaria nas noites frias. Foi uma sorte imensa ter conhecido quem me mandava aquelas cartas, que sempre chegavam pra mim quando eu sonhava com as estrelas.
“Achei estranho você nunca ter respondido, quando eu te conheci naquele ponto de ônibus, não mais enviei as cartas. Estive apaixonada demais, e isso me confundiu. Eu soube seu nome, não podia mais escrever para o “amor”. Achei que guardá-las em algum lugar seria mais viável.”, disse me encarando, sorrindo da maneira que mais me encanto.
“Eu sempre escrevi, mas de amor pra amor não dá. Isso confundiria qualquer um, e eu tinha medo de não ser recíproco, sempre tive medo de minhas cartas voltassem. Iria culpar os carteiros por achar que amor destinatário seria o mesmo que o amor remetente e me devolvessem as cartas, como sempre aconteceu antes de te conhecer. Mas, me diz onde estão suas ultimas cartas, já que você tem todas as minhas agora”, respondi novamente.
“Estão com os carteiros”, fechou os olhos e deitou-se em meus braços novamente.
“Que carteiros?” sorri, já sabendo que meu amor tinha um surpresa pra mim.
“Com as estrelas”, só não esperava que seria uma surpresa mágica. “Vem, vou te mostrar”, pegou em minha mão, e levantou-se da cama. Me conduziu até nossa janela e olhou para o céu, depois pra mim. Assenti com a cabeça e olhei pro céu. “Procure-as, se não achar eu te mostro”, disse, eu sorri e me concentrei na constelação que nos assistia.
Enquanto eu fitava o céu, senti seus dedos deslizando em meus braços. De uma forma rápida aproximou-se de mim e beijou meu pescoço. Senti seu corpo aceso por debaixo de sua enorme camisa, usada para dormir. “Não pare de olhar”, sussurrou em meu ouvido, e agachou-se em minha frente. Percebi um leve sorriso, enquanto erguia com os dedos a barra de minha camiseta, e então ajudei a tirá-la. Caminho livre para nossa paixão. Ela beijou minha coxa, deu uma mordida e subiu em movimentos leves e quentes, sendo fortes com o calor que fazia em nosso quarto. Roçou seus lábios em meu abdômen e deslizou sua língua em meu peito. Do jeito que eu mais gosto, puxou os cabelos de minha nuca, mordendo o meu queixo. “Pode tirar, estão ai”, disse, enquanto eu tirava sua camisa, e ela segurava minhas mãos, conduzindo-me ao seu corpo nú.
“Posso olhar agora?”, perguntei, enquanto ela se afastava segurando a minha mão.
“Pode sim, mas suas cartas não estão aqui”, aproximou-se, segurando com força o meu rosto, feição de quem queria me morder a todo custo, e quando me entreguei ao seu amor, provando o do gosto doce de seu pescoço, exclamou, “Vamos buscar suas cartas nas estrelas, meu amor.”
Naquele momento, senti que podia voar. Não por ter asas, mas pela leveza que seu corpo junto ao meu me proporcionava. Me tirava do chão, bambeava as pernas, me conduzia à um lugar mais alto do que nossa janela do apartamento era capaz de ver. Ela me levou às estrelas, me mostrou um amor incansável, tudo o que guardou pra mim, que nunca mostrou à nenhum homem de uma forma sublime e incansável, me dando o que jamais senti em minha vida, me levando ao apogeu de meu prazer.
Para sempre, cartas - Luiz H
terça-feira, 18 de outubro de 2011
para sempre,cartas
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